«A escolha do treinador é sempre o momento mais relevante»

António Nunes – Diretor Desportivo do CFEL

Na corrente temporada, António Nunes regressou a um lugar que no passado já foi seu, o de Diretor Desportivo do Clube de Futebol Esperança de Lagos, cargo que havia desempenhado na época 23/24. A ligação ao clube, porém, surgiu há muito mais tempo, quando o então jovem Leonardo Nunes, seu filho, deu os primeiros pontapés na bola nos escalões de formação, sendo que o percurso do jovem Leo continua até hoje de Lagos ao Peito, agora enquanto capitão da equipa sénior do clube.

Falámos com António Nunes sobre este seu regresso, as dificuldades sentidas para formar uma equipa sabendo de antemão que grande parte do ano desportivo seria condicionada pelas obras de requalificação do relvado do Estádio Municipal Fernando Cabrita, tudo isto num ano de final de ciclo diretivo que culminará na realização de eleições para os órgãos sociais do clube, ainda em 2026.

Que balanço pode ser feito da temporada do Futebol Sénior até ao momento?

O balanço só pode ser positivo, uma vez que alcançámos o objetivo principal que era estar presente no top 6, ou seja, entrar na Fase de Apuramento de Campeão, algo que infelizmente não foi possível na última temporada.

António José Alves, presidente do CFEL, David Antão (Técnico Principal 25/26) e António Nunes, no momento da apresentação da equipa técnica (Agosto 2025)

Não deve ter sido fácil a construção do plantel, até porque muito mudou da temporada passada para esta, a começar numa nova equipa técnica…

Houve dificuldades acrescidas, não só para segurar alguns atletas da temporada passada, como também para garantir a nova equipa técnica.

O David Antão fazia parte de um lote reduzido de treinadores que considerávamos prioritários

Como surgiu a hipótese David Antão? 

A escolha do treinador é sempre o momento mais relevante para um Diretor Desportivo, porque tudo começa por aí. No caso do David, já o conhecia desde a sua presença no Campeonato de Sub23, quando orientava a equipa do FC Ferreiras. Há dois anos tínhamos falado, até porque era meu desejo ter um treinador com base profissional e familiar no Algarve e o David Antão fazia parte de um lote reduzido de treinadores que considerávamos prioritários.

Quais os fatores que foram a base da decisão?

O perfil que pretendíamos, além da questão de ser alguém que conhecesse bem o futebol algarvio, apontava para um treinador jovem e ambicioso, que pudesse abraçar o projeto do Esperança para os próximos anos. O David Antão encaixava totalmente nesse perfil e, mesmo não tendo a experiência de outros, senti que podíamos ter nele o homem que procurávamos. Gostei dos primeiros contactos. Houve muita energia positiva e, por isso, a decisão foi tomada e, estou certo, foi uma boa decisão.

Depois do treinador, no futebol amador há sempre uma dificuldade enorme em segurar atletas, até porque para muitos casos é preciso conciliar a carreira profissional lá fora com a carreira desportiva… 

Procurámos desde logo mobilizar a base da anterior temporada, uma vez que sentia que estava ali o potencial necessário para atingirmos os resultados. Sabíamos que não ia ser fácil pois alguns estavam referenciados por outros emblemas com um orçamento maior, mas a verdade é que conseguimos segurar cerca de 90% do plantel. Houve algumas surpresas negativas, com jogadores que estávamos certos que ficariam mas que acabaram por sair, mas grosso modo conseguimos o mais importante.

Penso que os jogadores perceberam que este seria um recomeço e que, no futuro, haverá novos caminhos a trilhar

Todos perceberam que este era um ano de início de um projeto?

Quando se muda de treinador, há sempre um ciclo novo que começa. Penso que a maior parte do plantel sabe que o Esperança tem de lutar sempre pelos primeiros lugares, mas para isso é preciso tempo. Este ano seria sempre um risco enorme, não só pela mudança de equipa técnica, como também pela questão da mudança do relvado no estádio que nos iria condicionar muito, não só nos jogos como principalmente na questão dos horários dos treinos.

Mas penso que os jogadores perceberam que este seria um recomeço e que, no futuro, haverá novos caminhos a trilhar.

E em relação à equipa técnica? Foi fácil fazer passar a mensagem?

Claramente que sim. Sou muito objetivo e acredito bastante que o Esperança, fazendo um bom ano neste início de ciclo, abriria portas para que o segundo ano ainda melhor. Penso que entre o Diretor Desportivo e a equipa técnica é fundamental haver uma boa relação, para tudo funcionar como uma verdadeira equipa. 

A pouco e pouco fomos melhorando, como aconteceu com a entrada do Pedro Mendes (Fisioterapeuta) e todos os elementos da equipa técnica, os que chegaram este ano e os que transitaram da temporada passada, perceberam bem quais os nossos objetivos imediatos e de médio/longo prazo.
 

Eduardo Palma, Diogo Santos, David Antão e João Pacheco

Foi fácil integrar os novos elementos? Particularmente o mister Eduardo Palma (Adjunto) e o jovem fisioterapeuta Pedro Mendes…

Não conhecia o Eduardo, mas sabia que era alguém da total confiança do Mister David e, assim, por mim estava tudo bem. O Pedro também nos foi recomendado e é um jovem tanto para o presente, como para o futuro do clube. Achei que era muito importante contar com um técnico especializado como ele, e a integração com o Diogo (treinador de guarda-redes) e com o Pacheco (adjunto) foi muito boa.

“[José Rosado e Francisco Sequeira] São elementos vitais para passar a identidade do clube aos mais novos e acredito que para eles também seja importante continuar a fazer algo que gostam muito

Como foi essa transição entre o mister João Pacheco, que concluiu a época passada, e o mister David Antão?

Foi uma integração muito boa porque, quando me pediram para voltar, a primeira reunião que tive foi com o João Pacheco – que já conhecia desde o tempo em que foi nosso jogador nos escalões de formação –, na qual o informei que ele não seria o treinador principal esta temporada mas que gostaríamos muito de contar com ele na equipa técnica.

É um treinador muito jovem, com muito potencial, e por isso esta experiência com adjunto só pode ser positiva para a evolução da sua carreira. Além disso, é importante que o clube tenha sempre alguém dos seus quadros na equipa técnica que possa assegurar, em caso de necessidade, um momento de transição. Depois do Pacheco reconhecer tudo isso e de ele próprio ter dito que era o melhor para ele, foi só falar com o David, que aceitou de imediato.

O 11 do último jogo da 1.ª Fase, frente ao Culatrense, com Marco Costa, Leonardo Nunes, Miguel Cartaxo e Gonçalo Bigodinho, todos atletas vindos dos escalões e formação do Esperança.

Além desses cinco elementos que já falámos, há ainda mais dois que são vitais: falo do roupeiro José Rosado e do massagista Francisco Sequeira…

São duas pessoas já com muitos anos no clube e entendemo-nos bem porque somos muito diretos uns com os outros. Não foi fácil convencer o Rosado a ficar, porque estava determinado em sair, mas consegui demovê-lo dessa ideia. São elementos vitais para passar a identidade do clube aos mais novos e acredito que para eles também seja importante continuar a fazer algo que gostam muito e numa casa onde todos gostam deles.

A VIDA DE DIRETOR DESPORTIVO

Como é ser Diretor Desportivo de um clube dos escalões distritais, onde não há vínculos de longo prazo e onde tudo tem de ser articulado entre a vida profissional e desportiva?

Como é público, isto não é a minha vida, uma vez que a minha carreira profissional foi sempre feita enquanto empresário. Faço isto por amor ao clube e a um projeto que acompanho desde que vim viver para Lagos, há quase três décadas.

Sempre que abraço um projeto, tento dar o melhor de mim e atingir os objetivos que me proponho. Foi assim na minha vida pessoal e profissional e é assim também neste projeto desportivo do Esperança de Lagos. Não é fácil gerir um plantel de um clube que se debate permanentemente com problemas de falta de recursos, sejam eles financeiros, de pessoal ou até a nível das infraestruturas. Se os Diretores Desportivos dos grandes clubes nacionais se queixam da dificuldade que têm face à concorrência dos gigantes da Europa, imaginem o que é gerir um clube em que tudo é amador, inclusivamente os seus atletas.

Sempre que abraço um projeto, tento dar o melhor de mim e atingir os objetivos que me proponho

Atletas amadores, é certo, mas com muitas movimentações de empresários…

Sim, há  a questão dos empresários que tentam colocar futebolistas nos clubes de escalões inferiores para que eles possam lançar a carreira. Nem sempre é fácil lidar com isso, mas também é verdade que para muitos clubes do Distrital ou dos escalões nacionais só assim é possível fechar plantéis. É um risco que corremos. Nem sempre corre bem, mas por vezes há boas surpresas.

As pessoas pensam que só ao mais alto nível há pressão dos empresários, mas não é bem assim. Foi uma realidade que tomei conhecimento no Esperança e que não estava habituado. Hoje penso que sei lidar melhor com todas essas pressões que vêm de fora. Acima de tudo é fundamental manter a qualidade do plantel e não deixar que sejam elementos exteriores a decidir o que quer que seja.

É fácil de perceber que há sempre muitos contactos e muitos vídeos para ver…

É isso mesmo, por vezes contactos a horas impróprias. Quanto aos vídeos, nunca decido com base nessas composições de imagens que só mostram o melhor do jogador. Para mim o jogador é válido depois de ser testado em condições reais de jogo, assim como é vital que seja capaz de estar bem com o grupo de trabalho e saber respeitar as regras impostas pela equipa técnica e pelo clube. Isso só dá para perceber depois de conhecer a pessoa que está por detrás do jogador. Posso dizer que, se calhar, 80% do que veio foi embora.

E ainda temos mercado de inverno que, no caso do Esperança, nos fez perder peças importantes…

Quando falamos de futebolistas amadores sabemos sempre que há fatores que não controlamos, pois o atleta além de futebolista é também empregado numa empresa da região e nem sempre essa vida profissional se ajusta com a sua vida desportiva. No mercado de inverno deste ano, por exemplo, perdemos dois jogadores que não esperávamos [Nico Jara e Pedro Lucas], ainda que no caso do Nico soubéssemos que poderia acontecer. Todos os anos é uma luta para não perder a estrutura base da equipa.

Construir um balneário forte e coeso é o maior desafio?

Penso que sim. As qualidades humanas dos homens que estão no clube são fundamentais para que essa força coletiva seja uma realidade. Para isso, por exemplo, é importante que o plantel não seja muito extenso, pois sabemos que os jogadores que não têm muitas oportunidades podem ser um problema. É um equilíbrio difícil de atingir, pois se por um lado este ano temos um balneário forte, onde todos se sentem válidos, por outro tivemos problemas com lesões que nos condicionaram muito, sem que o plantel tivesse a profundidade que o mister pretendia. Temos 22 jogadores e sabemos que é um plantel curto, mas acho que estamos no bom caminho.
 

Como se consegue gerir o facto do Diretor Desportivo ser pai de um jogador, que por acaso até é o capitão de equipa? Não deve ser fácil…

Para mim não é difícil porque sempre soube separar as coisas. Lá em casa praticamente não falamos de Futebol, mas é bom que as pessoas entendam que neste caso não foi o Leonardo que veio para o Esperança por o pai ser Diretor Desportivo. Eu é que cheguei aqui em virtude do meu filho ser atleta do clube, no caso há cerca de 20 anos, até porque foi o único emblema que conheceu ao longo da sua carreira. Ainda assim, logo nas primeiras reuniões que tive com o Mister David Antão pu-lo ao corrente dessa situação, para que não restassem dúvidas.

O Leo chegou ao clube com que idade?

Penso que ainda não tinha feito 4 anos quando começou a jogar nas escolinhas do clube. Hoje tem mais de 100 jogos feitos na equipa principal, depois de passar por todos os escalões de formação.

E ele também lida bem com a situação?

Em casa sou pai, mas no estádio sou apenas e só o Diretor Desportivo do clube que ele representa. Isso ficou sempre muito claro para ele e para os próprios colegas de equipa. Talvez para ele seja um pouco complicado porque, enquanto pai, por vezes posso ser ainda mais exigente com ele do que sou com os outros, mas penso que hoje o Leonardo já vê tudo isto com mais naturalidade.

E como foi celebrar o golo dele que, por acaso, até foi o que garantiu a passagem à Fase de Apuramento de Campeão?

Foi uma alegria imensa, não por ter sido ele a marcar, mas sim porque foi a garantia que atingíamos o objetivo proposto. Esse jogo [frente ao Culatrense] não estava fácil, mas foi uma vitória importantíssima por nos colocar a salvo de qualquer questão relacionada com a luta pela manutenção. Como se veio a verificar, com a descida do Moncarapachense do Campeonato de Portugal para o Distrital, a luta pela manutenção iria ser muito dura e essa vitória fez toda a diferença.

Quão orgulhoso fica por saber que uma grande parte desta equipa é formada por jovens aqui formados, tal e qual como acontece com o Leonardo?

Fico muito, muito feliz por ver esta equipa com muitos jovens formados no nosso clube que sentem o símbolo como ninguém. Não tenho dados, mas acredito que devemos ser dos clubes do Algarve com mais atletas das suas camadas jovens que são regularmente titulares. Nesse jogo que falávamos, frente ao Culatrense, tínhamos cinco jogadores da formação e só não foram mais porque alguns estavam castigados, como o Tiago Lopes ou o João Marques.

Talvez na 2.ª Divisão Distrital possa haver alguns clubes como nós, mas na primeira não há nenhum nesta dimensão. E repare-se, estamos a falar de jovens, pois o mais velho é mesmo o Leo que tem apenas 24 anos. Se pensarmos no nosso 11 tipo, temos tido Marco Costa, Tiago Lopes, Gonçalo Bigodinho e Leonardo Nunes quase sempre titulares, com o Cartaxo, o Viana e o João Marques a entrar em muitos jogos. Penso que nesse capítulo estamos bem.

Para finalizar: finalmente o estádio tem um novo relvado e foi bem visível a importância da conclusão da obra neste jogo frente ao Olhanense. Como foi viver este período onde o clube teve apenas um campo disponível para treinos?

Foi muito complicado, sobretudo a questão dos horários dos treinos, que tiveram de passar para mais tarde para que os escalões de formação pudessem treinar mais cedo, mas também pelo facto destes atletas estarem formatados para um relvado natural e de maior dimensão. Pior do que isso foi o facto de acharmos que as obras estariam concluídas em 2025 e sabermos depois que iríamos continuar privados da nossa “casa” até final de abril.

Felizmente que tudo isso já faz parte do passado e foi muito bom o dia de inauguração onde, para além da vitória conquistada em campo, houve um clima de convívio e de apoio que veio das bancadas para o relvado. Esperemos que esta seja a primeira de muitas vitórias neste novo tapete verde fabuloso que agora dispomos.

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